quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

O monte, a academia e a multidão



O evangelista Mateus - no capítulo 17, versos 1 a 21 - apresenta um cenário capaz de nos levar à reflexão acerca do tipo de evangelho que temos vivido em nossa nação. A espiritualidade evangélica brasileira tem padecido com a dicotomização de dois elementos que, em tese, deveriam ser indissociáveis: a busca pela piedade e o zelo pela verdade.

Nitidamente, constata-se a divisão de cristãos evangélicos entre “pentecostais” e “tradicionais”. É verdade que essas nomenclaturas correspondem a inúmeros aspectos, tais como convicções doutrinárias; procedência histórica das denominações, dentre outros fatores. Não obstante, é igualmente verdadeiro que, no senso comum evangelical, pentecostais são os que “sentem” e tradicionais os que “refletem”. Não concordo com essa definição, mas devo admitir que, nas conversas informais, quando as pessoas perguntam se eu sou pentecostal ou tradicional, geralmente querem saber se “sou extravagante e não me preocupo tanto com doutrina” ou se “tenho zelo pela verdade, mas engesso o Espírito”. Em suma, pentecostais são estereotipados como os piedosos e tradicionais como os zelosos pela verdade.

Na passagem supracitada, Mateus nos apresenta três cenários que são dignos de nossa observação, a fim de compreendermos a realidade e o desafio de nossa igreja no Brasil: o cenário da transfiguração, o da vinda de Elias e o da libertação de um jovem endemoninhado. Tenho lido esse texto enxergando os dois primeiros cenários como a realidade da igreja evangélica brasileira e o terceiro cenário como seu desafio.

Cenário 1: O monte – O monte é o primeiro cenário apresentado por Mateus - Temo que o misticismo de parte da igreja brasileira, atrelado ao monte, decorra dessa passagem. Jesus havia convidado três dos seus grandes amigos para uma caminhada no monte. Em lá chegando, Pedro, Tiago e João se surpreenderam com o que viram: O rosto de Jesus foi transfigurado diante deles, Moisés e Elias apareceram ali e uma voz foi ouvida dos céus, dizendo: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo; a ele ouvi”.

Deve, de fato, ter sido uma experiência indescritível! Tanto que Pedro – o amigo de Jesus com mais iniciativa – fez uma agradável sugestão: “Senhor, bom é estarmos aqui; se queres, farei aqui três tendas; uma será tua, outra para Moisés, outra para Elias”.

Olho para a proposta de Pedro e penso se, em seu lugar, também não sugeriria o mesmo. Provavelmente sim! Não há quem, em sã consciência, não goste de experiências com Deus. Agradamo-nos com as surpresas divinas. Elas fortalecem a fé, moldam o caráter, trazem esperança. O “monte”, seja ele fisicamente o lugar que for, precisa fazer parte de nossa vida com Deus. É necessário haver espaço para a experiência em nossa relação com Cristo.

Cenário 2: A academia – Depois de apresentar o monte, Mateus apresenta o cenário da academia. Porque experiência não pode ser normatizada, Jesus ordenou que os três não contassem a ninguém a visão que tiveram, até que o Filho do Homem ressuscitasse dentre os mortos. Aproveitando o argumento do Mestre, os três perguntaram: “Por que dizem, pois, os escribas ser necessário que Elias venha primeiro?”

Parece patente o fato de que, naquele momento, os discípulos desceram do “monte” e entraram na “academia”. Aquele não era mais o momento de sentir, mas de refletir. Era o espaço das inquietações teológicas, da busca pela verdade, dos debates acadêmicos relacionados ao reino dos céus. Era a hora de entender o que Jesus estava falando, em conexão com os ensinamentos dos escribas.

Assim como o lugar da experiência precisa ser uma realidade na vida de um discípulo de Cristo, o zelo pela verdade também precisa ter o seu espaço. Ambas as atividades são indispensáveis para o cultivo de uma espiritualidade sadia. Da mesma forma que o “monte”, a “academia” é essencial. Não é preciso apenas sentir; também é necessário refletir!

Cenário 3: A multidão – Por fim, Mateus nos apresenta o terceiro cenário desta passagem; o cenário da multidão. “E quando chegaram para junto da multidão, aproximou-se dele um homem, que se ajoelhou e disse: Senhor, compadece-te de meu filho, porque é lunático e sofre muito; pois muitas vezes cai no fogo e outras muitas, na água. Apresentei-o aos teus discípulos, mas eles não puderam curá-lo”.

Depois de toda aquela experiência no “monte” e na “academia”, Jesus foi abordado pelas circunstâncias da vida. Um pai, desesperado pela situação de seu filho, clama pelo auxílio do Nazareno, já que seus discípulos nada puderam fazer por ele.

Cômico, para não ser trágico! Os piedosos do monte e zelosos da academia não foram capazes de encarar a multidão como o verdadeiro lugar onde a espiritualidade é vivida. Pensaram que morar no monte e descansar na academia seria suficiente para fazer com que sua fé fosse bem exercitada.

O erro dos discípulos foi o de se esquecerem de que é no meio da multidão que a beleza do “monte” e a profundidade da “academia” se revelam. Experiência e reflexão sem prática se reduzem ao pó! De igual forma, nosso desafio – como cristãos evangélicos no Brasil – não é o de optarmos pela “experiência pentecostal” ou pela “reflexão tradicional”. Antes, nossa tarefa é, tendo descido do monte e fechado a porta da academia, abrirmos os olhos no meio da multidão e, com a graça de Cristo, auxiliarmos os que precisam de nossa ajuda! Sem a multidão, o monte se torna um lugar de catarse e a academia um enfado para a alma.




Um comentário:

Lorus disse...

Legal o blog Pr. Daniel, reflexoes bem interessantes.