quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Viver e Cantar

“Quero cantar o que vivo, quero viver o que canto; seja meu riso e meu pranto viver e cantar”. Com estes versos João Alexandre inicia uma de suas belas canções, que tem como título o mesmo atribuído a este artigo. Viver e cantar são realidades que, conquanto devam existir em aliança, podem representar elementos bem distintos da existência de uma pessoa.

Tenho refletido, ultimamente, acerca da facilidade com a qual cantamos coisas que dificilmente diríamos em uma conversa. Embalados pelas melodias e por outros fatores, proferimos frases bastante comprometedoras nos momentos de louvor e adoração em nossos encontros. “Se paz a mais doce me deres gozar, se dor a mais forte eu sofrer... Sou feliz com Jesus, meu Senhor”; “Abro mão dos meus sonhos”; “quero ser usado da maneira que te agrada, em qualquer hora e em qualquer lugar”.

Estas e outras orações cantadas refletem uma consagração e maturidade que nem sempre correspondem à nossa realidade. Será que são estas as mesmas orações que fazemos a Deus nos demais momentos, que não aqueles nos quais estamos cantando sozinhos ou na congregação? Será que, vivendo em um mundo que jaz no maligno, encarnamos essas orações cantadas enquanto nos relacionamos com as pessoas que Deus tem colocado ao nosso redor?

Viver e cantar devem ser aliados inseparáveis. Nosso canto deve ser a voz de Deus em um mundo perdido. A melodia de nossa vida deve preceder o som de nossas palavras. Não me oponho ao canto! Na verdade, penso que Deus se utiliza da música de forma extraordinária para trabalhar no coração das pessoas. Todavia, não é irrelevante o fato de os Evangelhos só registrarem um momento no qual Jesus, nosso Senhor, cantou: antes da traição de Judas (Mt 26.30).

O mestre sabia que o som da vida é mais harmônico do que o som das palavras. Ele sabia que cantar e viver são elementos indissociáveis da fé cristã. Devemos, sim, louvar a Deus com salmos, hinos e cânticos espirituais. Entretanto, precisamos fazer de nossas canções um reflexo de nossas ações, e de nossas ações inspiração para nossas canções. Assim, a beleza do cristianismo, tão difundida por nossas composições, será contemplada ainda que, por um instante, paremos de cantar!

3 comentários:

Anônimo disse...

Triste quando transformamos musica em louvor e louvor em musica.Acredito que nos momentos de louvores na igreja é onde mais massageamos nossos egos, geralmente cantamos o que achamos o que somos, ou o que possivelmete fazemos devocionalmente.

Júlia Lauria disse...

Oi Dani, nunca comentei em blog algum, então não sei se posso escrever nos dias anteriores mas de qualquer forma vou faze-lo.
Acho que ao cantarmos louvores e muitas vezes em meio as letras nos comprometemos ou declaramos ser algo que não seremos ou somos, caimos na história de que sabemos o que é certo a seguir mas nem por isso seguimos. Não sei por quê fazemos isso mas tenho certeza que isso é uma constante na vida de muitos, não só no relacionamento com Deus mas também no com outras pessoas. Por vezes, na igreja ou em outros lugares, exigimos do próximo que tome a tal postura correta mas sem antes cobrarmos de nós mesmos essa postura.

Daniel Leite Guanaes disse...

Júlia, penso que isso é um reflexo de uma série de atitudes nossas. Vivemos em um período de anti-intelectualismo muito forte na sociedade - e a igreja não está fora disso. Por causa disso, quase não paramos para refletir. Isso se torna ainda mais forte quando o assunto em questão é a música. Parece que, ao cantarmos, desligamos o uso da razão e nos deixamos levar inteiramente pela emoção. Por causa disso, cantamos o que dificilmente falaríamos. Não há problema nenhum com a canção. O problema se instaura quando ela é separada da vida, seja qual for a razão.