quinta-feira, 4 de junho de 2009

A verdadeira espiritualidade


O apóstolo João, provável autor de cinco livros do cânon sagrado, ficou conhecido, em seus escritos, por sua dedicação aos temas relacionados ao amor. Em sua primeira carta, deparamo-nos com uma exortação feita às igrejas, de modo geral, pela falta desta virtude entre os irmãos.

Havia, no primeiro século, um grupo de hereges que defendiam a seguinte tese: o corpo é mau, enquanto o espírito é bom. Esses homens, conhecidos como gnósticos, estavam pervertendo a Igreja de tal modo que, por conta de seus ensinamentos, alguns cristãos abandonavam as relações comunitárias, dedicando-se apenas a uma relação com Deus.

João, combatendo radicalmente esta postura de alguns, envia esta epístola, ensinando-nos uma verdade essencial acerca da espiritualidade cristã. Diz ele: “aquele que disser ‘eu amo a Deus’ mas odiar seu irmão é mentiroso”. Não há como amarmos a Deus, a quem não vemos, se não amarmos nosso irmão, a quem podemos ver.

Segundo João, a espiritualidade cristã se desenvolve, também, em meio às relações entre os irmãos. As virtudes cristãs amadurecem enquanto as exercemos na comunidade. Crescemos em intimidade com Deus quando investimos em amor naqueles que expressam Sua imagem.

Creio que esta tem sido uma das maiores crises da Igreja atual. Temos por modelo de espiritualidade a vida daqueles que se trancam em seus quartos, oram e jejuam, buscam a face de Deus, esquecendo-se, muitas vezes, do seu semelhante. Em contrapartida, desprezamos os que talvez não orem tanto, mas que investem numa vida de cuidado e amor para com o próximo.

A espiritualidade cristã desenvolve-se no equilíbrio entre estas duas dimensões: Amor a Deus e amor ao próximo. Vida de oração e de demonstração de amor. Basta voltarmos nossos olhos para os Evangelhos e veremos que este era o modelo de Jesus. Constantemente se retirava para orar e estar em comunhão com o Pai. Passava boa parte do seu tempo, entretanto, cuidando de suas ovelhas, amando o próximo e importando-se com aqueles que necessitavam de seu amor.

Há quem diga que é por isso que a cruz tem o formato que conhecemos. Para nos lembrar que a espiritualidade cristã só existe enquanto as duas dimensões estiverem unidas; a vertical e a horizontal. Eu sei que esta não é a verdadeira razão de seu formato. Todavia, passou a ser para mim. Desta forma, não me esqueço que preciso olhar não apenas pro alto, mas também pro lado, para agradar meu Criador.

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