quarta-feira, 23 de junho de 2010

Ensaio(s) sobre a cegueira.

Ensaio sobre a cegueira foi o primeiro livro que li de Jose Saramago. Foi também um dos que mais impactos tiveram sobre mim. O teor da obra deixa qualquer um angustiado do começo ao fim. Uma desconhecida e incontrolável epidemia assola uma cidade, deixando-a em condições que de longe ultrapassam o limiar mínimo da dignidade humana.
Curiosamente, esta é uma obra que parece ser lida e relida em diversas circunstancias - que inclusive ultrapassam o enredo criado pelo escritor português. Eu, pelo menos, sinto que ja reli esta obra quase dez vezes nos últimos doze meses. Não; meu livro continua na prateleira, desde que acabei de lê-lo. Acontece que cada vez que me deparo com as tragédias que assolam cidades ao redor do mundo, vejo-me diante do cenário narrado por Saramago.
As tragédias - independente de que ordem sejam - geram no ser humano um misto de desespero, indignação, desejo de sobrevivência e tantos outros elementos que, muitas vezes, potencializa a maldade que nos é inerente. O caos, diante disso, parece inevitável.
Angra dos Reis, Santa Catarina, Rio de Janeiro e Niterói, Alagoas e Pernambuco, sem contar os constantes eventos de natureza semelhante ocorridos fora do Brasil, se apresentam, a meu ver, como ensaios sobre a cegueira. Piores, todavia, já que não estão limitados ao universo da ficção. Revelam o desespero de uma raça que está vulnerável aos acontecimentos de um mundo que é maior do que ela, à maldade que é do seu tamanho, e a consequências cujas dimensões são incalculáveis.
O que vejo de diferente nesses ensaios sobre a cegueira - quando os comparo com o que primeiro li - é que eles são acompanhados de compaixão e esperança. É verdade que às vezes compaixão e esperança se escondem no meio do caos estabelecido. De fato, elas costumam ficar apagadas, perdidas no meio de nossa maldade. Todavia, em um mundo criado por Deus elas nunca desaparecem. Seus reflexos, cedo ou tarde, se manifestarão, dando nova ordem ao caos.
Sofro com os ensaios sobre a cegueira que tenho visto acontecer. Mas confesso que o que Saramago escreveu me angustia mais. Porque os da história, por mais sofríveis que sejam, podem ser revertidos pelo poder da luz, enquanto o do escritor está fadado ao inevitável extermínio de um mundo no qual a maldade age livre e desenfreadamente.
Vivo o caos da história. E, ao vivê-lo, continuo enfrentando os incontáveis ensaios sobre a cegueira. Nunca, entretanto, deixando de lado a compaixão e a esperança de ver uma vez mais Deus restabelecer, do caos, a ordem de um mundo que Ele nunca deixou de controlar.

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