terça-feira, 26 de outubro de 2010

Confissões de uma samaritana

Todas as manhãs eu saía de casa cedo pra buscar água na fonte. Na verdade, íamos juntas. Eu e todas as mulheres da região. Caminhávamos e conversávamos sobre a vida. Confesso que sempre temi essas caminhadas matinais. Nunca expus para ninguém meus dilemas. Minha história era por demais complicada para ser revelada desnecessariamente. Além disso, elas poderiam não querer mais minha companhia se descobrissem quem eu era.
Foi por isso que ontem resolvi sair mais tarde. Quando elas passaram na minha porta, avisei que precisava fazer algumas coisas em casa. Dei a entender que não precisaria de água aquele dia, pois havia recolhido quantidade suficiente na manhã anterior. Estava decidida a fugir daqueles encontros. Não desgastaria minha imagem por nada.
Fui pra fonte ao meio dia. Sabia que ninguém estaria lá. O sol rachava a terra seca. Escaldante, desanimava qualquer pessoa. Menos a mim. Preferia a fúria do sol ao risco de ter minha história exposta. Por isso nem me preocupei com o calor.
Quase voltei quando vi um homem sentado junto à fonte. Havia planejado tudo tão perfeitamente. Ninguém deveria estar ali! Estava determinada a voltar, mas quando dei por mim, já estava ao seu lado - e conversando com ele. Achei muito estranho. Sabia que ele era judeu. E ele que eu era samaritana. Mesmo assim a conversa fluiu.
Ainda que tenha tentado, sem sucesso, cumprir os protocolos, tenho que admitir que me deixei envolver por seu discurso. Até que o pior aconteceu! Ele tocou no meu ponto fraco. Por alguns instantes me desesperei. 'Era melhor ter saído cedo com as mulheres', pensei. Ter sua vergonha exposta a um homem é pior do que tê-la revelada a todas as mulheres em uma sociedade como a minha. Já esperava o desfecho... quando me surpreendi.
Percebi que ele era profeta. Revelou meu pecado e me amou ao mesmo tempo. Perguntei, então, onde era o templo. Teve gente que não entendeu minha atitude. Eu só queria saber onde deveria levar minha oferta pelos pecados cometidos. Queria acertar as contas com Deus; e da forma certa.
Quando ele me disse que poderia adorar em qualquer lugar, não aguentei! Saí em disparada para a cidade. Queria me encontrar com todos e contar as boas novas. Não podia guardar aquilo para mim; precisava compartilhar. Só depois percebi como eu havia mudado. Lembra que comecei o dia fugindo daquelas mulheres?

Um comentário:

Antonio Mano disse...

Boas novas.. boas mudanças!