segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O dia que eu comecei a viver

Eles me olhavam como seu eu tivesse feito mal a todos. Sei que fiz sofrer algumas daquelas famílias. Mas não havia necessidade de me olharem com tamanho ódio. O que mais eu poderia fazer? Sei a vida que vivi. Foi minha a escolha de terminar meus dias - tão precocemente, por sinal - daquela forma. Ninguém escolhe diretamente ter um desfecho daquele, é verdade. Acontece que, indiretamente, minhas escolhas diárias não possibilitaram que o final de minha história fosse outro.
A hostilidade era tão grande que eu nem me dei conta de quem estava ao meu lado. Como muitos o humilhavam com suas palavras, eu entrei na onda e fiz coro com a multidão. Até que me dei conta... era ele! Aquele nazareno de quem tanto falavam. Diziam que com ele estava a esperança para Israel. E por que ele estava ali? Toda declaração a seu respeito era sobre o bem que fazia às pessoas. Não consegui me recordar de nenhuma acusação que, tendo sido feita contra ele, fizesse sentido em minhas avaliações.
Resolvi olhar para ele. Não aguentava mais olhar nos olhos da multidão. Eles faziam minha alma doer mais do que minhas feridas. Foi quando estremeci. Nunca em minha vida alguém havia me olhado daquela forma. Todo olhar tinha, para mim, sinal de condenação. Mas ele parecia comunicar com seus olhos o amor que nunca recebi nem com gestos ou palavras. Estranho! Ele sabia quem eu era, já que minha má fama corria por toda Israel. E ainda assim não me olhou como os demais.
Não queria sua pena. Queria seu amor. E descobri que era exatamente isso que ele me oferecia. Nossa conversa foi sussurrada. Faltava-nos força; sobrava-nos dor. Mas ele entendeu o meu recado. E eu o dele. Ele ouviu meu arrependimento. E eu minha absolvição. Ele não me livrou do madeiro; mas, milagrosamente, a morte perdeu seu poder sobre mim.
Foi ali, prestes a morrer, que eu comecei a viver.

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