segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O mais rico dentre os pobres

Nunca pensei que pudesse ouvir uma mensagem como aquela no lugar onde vivo. Honestamente, eu achava que havia discursos que não se aplicavam ao meu contexto. Aquele, então, eu tinha certeza não ser pra gente como eu.
Sempre vivi em uma das piores favelas da cidade. Ainda que as casas que dão para a principal avenida fossem bem cuidadas, todo mundo sabia que o resto da favela havia caído, há muito, no esquecimento das autoridades. Cuidavam da primeira rua para que quem passasse por ali pensasse estar tudo em perfeita ordem de conservação. Só quem morava na comunidade sabia como, de fato, as coisas eram. A minha rua, então - se é que aquilo pode ser chamado de rua - sendo a última, era desconhecida inclusive por moradores do bairro. Eu e poucos vizinhos é que sabíamos como era viver ali. Quer dizer, sobreviver.
Mesmo assim, jamais perdi a fé. Confiava que Deus olhava por mim. Sempre aparecia uma comida ou outra nas horas do aperto. O pessoal da comunidade era prestativo, nesse sentido. Havia entre os moradores da comunidade um senso de solidariedade que até me fazia orgulhoso de viver ali.
Foi em um de meus momentos de menor dificuldade - raros, por sinal - que resolvi ir à igreja. Falam que pobre só vai à igreja quando quer ajuda. Mas eu estava bem naquele dia; já havia estado muito pior.
Logo vi que o pastor era diferente. A roupa que ele vestia e o carro que estacionava não deixavam dúvidas de que ele não era da comunidade. Nem daquela, nem de nenhuma outra. Era gente fina - o que já me deixou com pé atrás. O que um sujeito como aquele estava fazendo na última rua da comunidade - se é que aquilo pode ser chamado de rua.
Quando ele abriu a Bíblia, então, ficamos sem entender nada. O texto que ele escolheu falava algo sobre um rico dificilmente entrar no reino dos céus. 'Esse cara ficou louco!', foi o que eu e provavelmente todo mundo ali pensou. Das duas, uma: ele não percebeu onde está, ou está querendo mostrar pra gente que é um dos poucos ricos que conseguiram entrar no reino de Deus! Pra quê falar de rico em um dos lugares mais pobres da cidade?
Por mais que estivesse certo de que aquele discurso não era pra mim, suas palavras me cativaram como poucas mensagens que havia escutado nas raras vezes em que fui à igreja. Comecei a pensar - enquanto ele falava - de como, apesar do carro e da roupa, ele vinha tratando as pessoas antes do culto com uma simplicidade dificilmente encontrada aqui na comunidade. Ele abraçou sem demagogia gente que eu não abraço; sentou-se ao lado de pessoas com as quais eu não me assento; e conversou com outros por quem eu sinto repúdio.
Não me lembro quando me perdi na mensagem. Jamais me esquecerei, contudo, o momento em que me achei. Com humildade e mansidão, ele dizia que os ricos que dificilmente entrariam no céu não eram, necessariamente, os afortunados, mas os que - possuindo dinheiro ou não - tinham o seu coração na riqueza.
Nada mais me era necessário naquele encontro. Na verdade, nem sei como o culto acabou. Não esperei apelo, ou qualquer oração. Saí da igreja e voltei pro meu barraco, lançando-me de joelhos ao chão, arrependido por ter, por tanto tempo, servido a um deus de papel que nunca consegui carregar na carteira, mas cujo lugar era cativo no meu coração.
Continuo morando no mesmo lugar. Ainda indignado com o descaso das autoridades com minha comunidade e, principalmente, com minha rua - se é que aquilo pode ser chamado de rua. Mas aprendi que o que faz de mim um rico passível de não entrar no reino dos céus não é o dinheiro que tenho ou deixo de ter, mas o maligno e obsessivo desejo que cultivo ou não por ele. Continuo, nessa luta, com minha fé em Deus. E agora, depois de entendida a mensagem, somente nele.

2 comentários:

Daniel Canicio disse...

Excelente texto, Daniel! :)

Marilia Lessa disse...

Simplesmente,LINDO!!Parabéns!!