quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

O Cristão e o Mito de Narciso

Poucos mitos representam tão bem a condição humana quanto o de Narciso. Nascida na Grécia Antiga, a estória do homem que foi cativado por sua própria imagem permaneceu restrita ao universo da mitologia até o final do século XIX. Foi com Freud que ela ganhou projeção. Sua investigações clínicas o levaram a constatar uma dose - em maior ou menor escala - de Narciso em todo homem e mulher. Com isso, fez com que estudiosos das mais diversas áreas passassem a analisar o distúrbio até então desconhecido como tal, ainda que sempre presente na história da humanidade.
Na teologia, pouco se tem falado sobre o mito de Narciso. Irônico, já que a fé em muito tem sido vivenciada a partir dele. Padrões narcisistas, no âmbito individual e social, se misturaram com tanta facilidade ao universo da fé que suas fronteiras parecem cada dia mais enfraquecidas, apagadas.
No cristianismo, por exemplo, percebe-se cada vez mais pessoas carregadas de um tremendo senso de onipotência, superficiais em seus relacionamentos, imaturas em sua fé e apaixonada pela imagem que construíram de si. Pior! Poucos são os que notam a incongruência entre a fé que abraçaram e a espiritualidade que vivenciam.
Os gregos tinham razão. Quem se apaixona pela imagem que constrói de si fica hipnotizado. Narciso não se escravizou pelo que era, mas pelo que pensava ser. Porque se soubesse quem, de fato, era, não ficaria estático - a menos que, não suportando sua condição, quisesse fugir do confronto com sua realidade.
Assim são os que, abraçando a fé cristã, vivenciam-na como se discípulos de Narciso fossem. Não se apaixonaram pela fé revelada, mas pela fé construída. Não pela fé que os confronta, mas pela fé que os afaga. Não pela fé que liberta, mas pela fé que escraviza. Talvez nunca verão em Cristo a imagem do Deus invisível. Porque cada vez que olham para o que acham ser ele, encontram sua própria imagem refletida. Um prato cheio pra quem quer deixar tudo como está!

2 comentários:

Evaristo Lacerda disse...

Facil viver num mundo de fantasia que enfrentar, analisar, renovar pela fe', o nosso dia a dia.

Anônimo disse...

Bom texto em cabeção!!!! Até que esse doutorado tá fazendo alguma diferença....rssss. parabéns