terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Saramago e a teologia do caos

Em 1995, José Saramago publicou uma de suas obras mais peculiares. Ensaio sobre a cegueira é o tipo de romance que angustia do início ao fim. Ainda que fascinado pelo desdobramento da trama, a obra me encanta por seu discurso teológico. Irônico, por sinal, já que Saramago foi um dos grandes promotores do ateísmo no século XX, no universo literário.
Ensaio sobre a cegueira é um tratado sobre a teologia do caos. Narrando uma cidade levada, do dia para a noite, a uma alteração cabal do seu status quo, Saramago descreve o poder da desordem para promover barbárie entre os homens. Acometidos por uma cegueira inexplicável, irreversível e altamente contagiosa, habitantes de toda uma cidade são levados a alterar seus padrões de vida por conta das novas condições às quais estão, involuntariamente, submetidos. Em pouco tempo, o caos se estabelece. Com ele, à reboque, vem a barbárie.
Poucos livros revelam com tanta franqueza a vulnerabilidade do homem pós-queda. Por saber de suas convicções ateístas, não tenho dúvidas de que o escritor português não se propôs a descrever o homem caído. Provavelmente tais terminologias nem ao menos faziam parte de seu vasto vocabulário. Todavia, ciente que teologia não se faz a partir de palavras, mas da observação da vida, ouso dizer que Saramago teologou.
Sempre que o caos se estabelece, a barbárie se encontra na iminência de ser instaurada. Sempre que o caos se estabelece, a maldade outrora subestimada toma proporções jamais calculadas. Sempre que o caos se estabelece, a ética é violada. Sempre que o caos se estabelece, a moral é deturpada. Sempre que o caos se estabelece, a coletividade é pulverizada. Sempre que o caos se estabelece, a vida entra em extinção.
Saramago disse que Ensaio sobre a cegueira é um tratado sobre o sofrimento. Ouso discordar do autor. Aquele é um tratado sobre o caos. Porque ainda que todo caos seja sofrível, nem todo sofrimento é caótico. É possível sofrer sem que se vivencie o caos e a barbárie.
O romance do nobre português se encerra com o estabelecimento do caos. E é aí que minha teologia difere da dele. Sua obra se encerra, quando deveria continuar. Nada se encerra com o estabelecimento do caos. O caos não é permanente. Ele encerra tudo, ou é encerrado por algo maior. Se não encerrou todas as coisas, é porque foi contido.
Saramago, segundo seu próprio relato, sofreu com o livro até o fim. Talvez porque tenha encarado as últimas palavras que escreveu como o fim. Faltou-lhe perceber que o caos e a barbárie - conquanto tenham promovido estragos de proporções incalculáveis - não encerraram a história da cidade assolada. Isso não elimina seu sofrimento; apenas não o condiciona à teologia do caos.

Um comentário:

Fabio Barbi disse...

Vc é o cara! Me fez querer ler o livro! Abs