quinta-feira, 7 de abril de 2011

Entre o vento e as raízes

O século XX foi marcado por constantes lutas pela liberdade. Povos brigaram por liberdade política e ideológica; mulheres pela liberdade da opressão sexista; jovens pela liberdade sexual e de expressão. De uma forma ou de outra, em todo canto tinha gente querendo ser livre como a brisa que bate no rosto e some sem se despedir ou dizer pra onde vai.
Seria desonesto afirmar que este anseio por liberdade não trouxe benefícios à sociedade. Ela carrega consigo a possibilidade de se vivenciar experiências então enclausuradas pela opressão. Dá a quem quer que seja a sensação de poder fazer o que pede o coração. A liberdade aproxima o sonho da realidade, e dá voz ao que antes em silêncio permanecia pelo medo da censura.
Acontece que esse mesmo anseio por liberdade - tão benéfico sob certos prismas - tem ajudado a construir uma cultura regida pela mentalidade do desapego. E se os benefícios da liberdade nos contextos mencionados foram logo percebidos no século XX, seus efeitos colaterais têm se manifestado neste século XXI.
O desejo de ser como a brisa do vento tem minado a importância de se criar raízes como as árvores. A liberdade trouxe consigo o esvaziamento das relações, o abandono das ideologias, a relativização de qualquer absoluto. Não há mais satisfação que se deva dar a ninguém. Porque nada há que lhe prenda em nenhum lugar. Como acontece com o vento, fazemos da superfície não uma camada a ser perfurada, mas o limite do contato estabelecido com o outro.
Por uma questão de sobrevivência, é preciso encontrar algum lugar entre o vento e as raízes. Entre a volubilidade da superfície e a rigidez do subterrâneo. Um lugar onde liberdade não leve ao desapego e raízes não tenham cara de prisão.

Um comentário:

Anônimo disse...

Que dom da escrita maravilhoso... louvado seja o nome de Jesus!