terça-feira, 23 de agosto de 2011

A Trindade e o Casamento



Não são poucas as pessoas que enxergam o casamento como uma instituição falida. As estatísticas, de fato, apontam não apenas para um descrédito confessional em relação ao matrimônio. Os índices de divórcio falam por si, bem como o significativo aumento do número de pessoas que optam por não abraçar a conjugalidade como estilo de vida.
Dados de 2008, por exemplo, indicavam um crescimento de 200% na taxa de divórcio em 23 anos no Brasil. Hoje, casamentos em nossa nação duram – em média – 10 anos. Entre os casamentos que acontecem, não poucos dos que optam pela separação total de bens justificam sua escolha dizendo: “fica mais fácil dividir tudo na separação”.
Algumas dificuldades universais no estabelecimento ou permanência de um casamento – dentre as muitas existentes - são, aqui, dignas de destaque: (1) Cônjuges que não aceitam a identidade do outro; (2) cônjuges que incorporam e se perdem na identidade do outro; (3) casais que constroem uma identidade para si, mas que relegam as identidades pessoais de cada um dos cônjuge.
Em dias de promoção do individualismo – sempre com exacerbadas características narcísicas – é bastante comum encontrar pessoas que não se dispõem a levar uma relação a dois adiante por não aceitarem a identidade do cônjuge. O amor que nutrem pelo outro parece não fortalecer o senso de compreensão de diferenças - que não são apenas dignas de tolerância, mas fundamentalmente saudáveis (estando elas dentro de um padrão de normalidade, obviamente) para a construção da relação conjugal. O peso da aceitação é maior do que a dor da perda da pessoa que se ama ou supõe amar. E a escolha por si se sobrepõe à escolha pelo outro.
Por outro lado, há quem mergulhe nessa relação de tal forma, acabando por incorporar completamente a identidade do outro, perdendo-se nela. São pessoas que entendem que a demonstração de amor pelo outro está em se anular completamente, vivendo a partir das expectativas de seus pares. Encontram o outro; mas se perdem. Deixam de viver sua própria vida – e geralmente só se dão conta disso quando a relação – por qualquer que seja a razão – chega ao fim.
Há, ainda, quem construa com seu cônjuge uma identidade como casal, mas que relega ao esquecimento particularidades da subjetividade de cada um – como se elas fossem uma ameaça à nova identidade construída. São pessoas que dificilmente percebem que seu papel como casal não precisa anular o papel que cada um representa como indivíduo. Há reajustes nestes papéis, evidentemente. Mas não abandono, obviamente.
Frente a este dilema, e com todo interesse na saúde conjugal - a fé cristã se estabelece como uma grande facilitadora na preservação e manutenção do casamento. Isto, não apenas porque Moisés apresenta o Criador como instituidor do matrimônio (Gn 2.18-25). Tampouco, se deve apenas ao fato de Jesus e Paulo terem ratificado o que Moisés já havia falado ao povo de Israel (Mt 19.3-12; 1 Co 7). Tais argumentos, é verdade, por si só são suficientes para comprovar o interesse da fé cristã na unidade conjugal. Todavia, há algo mais que fortalece a santa união de um homem e uma mulher: a misteriosa natureza da Trindade.
Um mistério inefável, de cuja natureza pouco podemos compreender, a Trindade se apresenta como o maior dos modelos para construção de um casamento saudável. Apesar de pouco olharmos para a triunidade divina com esse objetivo, vale destacar que, sob a ótica bíblica, a relação conjugal é a que mais próxima está da relação trinitária.
Na santíssima trindade, existem três pessoas que respeitam a identidade das demais. Pai, Filho e Espírito Santo reconhecem suas diferenças na economia trinitária como sendo saudáveis. Não poucas vezes nas Escrituras Jesus falou do Pai e do Santo Espírito, atribuindo a eles características que não atribuiu a si. De igual forma, o reconhecimento de cada uma das pessoas da Trindade quanto à identidade das demais não faz com que elas a desejem, perdendo-se nessa relação. Pai, Filho e Espírito se amam, mas nunca quiseram ser o outro. Ainda, sendo eles um único ser, não deixam de ter e valorizar, cada um, a sua própria identidade. A identidade coletiva não sublima a individual.
O Deus Trino é, ele mesmo, a maior inspiração para a confiança na possibilidade de construção de um casamento saudável. É possível ser diferente do outro, sendo um com o outro. É possível ser um com o outro, sem se perder no outro. É possível fazer surgir um novo “um+outro”, sem que um e outro deixem de existir enquanto tais. Basta lembrar da Trindade – onde se vêem três enxergando um, e onde se vê um enxergando três.

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