terça-feira, 13 de setembro de 2011

Sobre a Verdade

A busca pela verdade tem como ponto de partida a inexorável constatação da realidade da mentira. Verdade é um dos conceitos que só fazem sentido quando contrapostos a algo. Como luz e trevas, e frio e calor, verdade e mentira são referenciais necessários na compreensão de um ou do outro. Busca-se o real porque, de alguma forma e em alguma medida, se tem a impressão de que se vive o ilusório.
Tal impressão, vale frisar, é tão antiga quanto a história da humanidade. Não é por nada que, desde sempre, homens se engajam na busca da verdade, a fim de revestirem sua trajetória com significado e relevância. Tentam encontrar conceitos que, sob o crivo da lógica, coerência e aplicabilidade, sejam igualmente sustentáveis e fonte de sustento. 
Toda verdade, uma vez encontrada, é sacralizada. O anseio por sua compreensão é tamanho que, em descobrindo-a, os homens cultivam por ela reverência e adoração maiores do que por qualquer outra realidade. E é exatamente neste ponto, à luz das Escrituras, que sua busca pode ser um risco para quem a almeja alcançar.
A despeito da quase automática percepção da verdade como conceito, a fé cristã se distancia de outras cosmovisões neste aspecto. Sua tese sobre a verdade é a de que ela é uma pessoa, antes de ser um elemento teórico. Não se trata, portanto, de algo construído, mas de alguém revelado. Deixa de ser um objeto a ser compreendido, tornando-se um ser que compreende. Dela derivam conceitos, mas ele mesma é maior do que eles.
Isso não significa que - por ser a verdade uma pessoa - os conceitos devam ser rechaçados. São ainda importantes, visto sistematizarem nossa compreensão de quem ela é. Contudo, não devem ser sacralizados e reverenciados com a facilidade com a qual se costuma fazer. Porque por mais que revelem minha interpretação da verdade, não são necessariamente a verdade em si. A verdade enquanto conceito nada mais é do que minha compreensão da verdade enquanto pessoa - a partir do que construo e da forma pela qual, tendo sido revelada, a percebo.
A jornada deve continuar. Enquanto ilusão e mentira estiverem instauradas entre os homens, realidade e verdade devem ser aneladas. Debaixo do entendimento, entretanto, de que verdade e compreensão da verdade se distinguem entre si. Abraçando o que se entende ser verdadeiro, mas como consequência de ter sido abraçado pela verdade. Reverenciando a compreensão, mas sacralizando quem - de fato - compreende. Em busca da verdade, mas sabendo que, no fim, quem nos busca é ela.

2 comentários:

Anônimo disse...

Lendo um livro do Augusto Cury ele diz que a "Não é a realidade concreta de um objeto que importa para a nossa personalidade, mas sim a realidade interpretada, registrada"... além de falar da criação da nossa personalidade, ele fala sobre como pessoas diferentes podem ver a mesma coisa, viverem a mesma realidade, mas interpreta-las de formas diferentes. Ainda bem que a verdade cristã é capaz de nos abraçar, só assim poderemos viver a mesma verdadeira realidade. É uma pena que as vezes só abraçamos a nossa compreensão da verdade e não nos deixamos ser abraçados por Jesus. Cada dia faz mais sentido pra mim João 3.30.

Beijos,

Júlia Lauria

Anônimo disse...

Verdade, Júlia. Corremos o sério risco de achar que nossa interpretação da verdade é maior do que a verdade em si, ou a esgota. Humildade é o caminho para a relação com a verdade. Começa por aí! beijos.
Daniel Guanaes