terça-feira, 4 de outubro de 2011

Ao redor da mesa

Era mais um encontro ao redor da mesa. Nos últimos três anos ao seu lado, eu havia aprendido que estes eram os encontros mais especiais. Pareciam os mais despretensiosos. Talvez por isso fossem também os mais surpreendentes. E, de todos, foi o que mais me marcou. Parecia que ele sabia que seria o último; pelo menos o último desta fase.
Tudo era diferente, ainda que igual. A mesa era a mesma. Especial, não apenas por ter sido feita pelo Seu José, mas porque em volta dela travei as conversas mais significativas da minha história. E como ele sabia contar histórias! Mais do que isso, sabia contar a minha história. Fazia isso como nem mesmo eu sabia fazer.
Nossos olhares, ao redor da mesa, costumavam oscilar entre a comida posta e os olhos de quem falava. Era sempre assim. Ele havia nos ensinado o valor do contato visual. Pelos nossos olhos, lia nossa alma - o que sempre nos calava e deixava intrigados. Mas dessa vez ele fez diferente. Olhava a comida, os olhos de quem falava e nossos pés.
De repente, de onde estava se levantou. Deixando de lado seus talheres, pegou uma toalha, uma bacia e o avental. Eu imaginava o que ele estava prestes a fazer, mas não queria acreditar no que meus olhos viam. Ele era o convidado de honra, e meus empregados estavam em casa. Mais de um! E justamente naquela hora? Como judeu, ele sabia o valor da refeição em nossa tradição. Mas não deu tempo. Quando dei por mim, ele já estava ajoelhado, limpando nossos pés.
Até mesmo o mais arredio de nós, depois de uma insistência para não participar daquela 'loucura', se rendeu ao gesto. O silêncio gritava. E do rosto de cada um que teve seus pés lavados escorriam lágrimas. Era só o que seu ouvia. Parecia que ele nos lavava a alma e o espírito. E eu acho que foi isso que aconteceu. Pelo menos comigo.
É que eu não contei como eu cheguei ali naquela noite. A caminho de casa, orgulhava-me por participar de mais um encontro, ao redor da mesa, com aquele que sabia ser o rei. Isso, em minha mente, fazia de mim um nobre. E desse pecado eu fui liberto enquanto, ajoelhado no empoeirado chão, meu rei tirava não apenas a sujeira dos meus pés, mas me lavava o coração, mostrando que nobres são os que oscilam o olhar entre a pureza da mesa e a imundícia do chão - ambos retratos do meu ambíguo ser.

Um comentário:

Marilia Lessa disse...

Nossa!! cada dia mais abençoado!!! Gosto muito do que você escreve,mas com certeza a cada dia vejo o quanto você têm se aperfeiçoado.Que o Senhor Jesus continue te abençoando.