quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Teologia "Cara a Cara"


Cara a cara” foi um dos muitos jogos que marcaram minha geração. Tratava-se de um duelo entre dois participantes - cada qual com um tabuleiro igual ao do outro, repleto de fotos de rostos de personagens – que tinham como objetivo descobrir qual o personagem que o outro tinha na mão.
Era uma simples e divertida investigação, marcada tão somente pela  afirmação ou negação das perguntas que eram feitas. Via de regra, a negação era o caminho mais fácil para descobrir a carta do adversário. A tentativa de descobrir quem o outro era se dava pelo desejo de saber quais características ele não tinha. No final, o sujeito era o que sobrava do que ele dizia não ser.
Cara a cara” parece ser – tenho a impressão - o jogo teológico do momento. Porque é cada vez mais comum se definir teologicamente pelo que não se é. “Não sou da confissão positiva”, dizem uns. “Não sou da predestinação”, alegam outros. “Não sou da teologia relacional”, afirmam terceiros. E de eliminação em eliminação, se descobre que se é o que restou de não ser.
Sei da importância da negação na afirmação. Ela estabelece limites na compreensão de idéias, sistemas e pensamentos. Tenho de confessar, contudo, que não entendo quem escolhe esse viés como principal meio de auto-definição. Será que o que você não é tem mais significado do que o que você é? E o que você exclui lhe representa mais do que o que você agrega?
Definitivamente, não entendo! De “cara a cara”, fico só com o jogo. Porque o que você pensa é parte do que você é na vida real. E se o que você é se resume a  não ser o que você não é, é porque falta refletir sobre o que realmente lhe define.
Prefiro a afirmação como principal ferramenta de auto-definição. Entendo que o que sou diz mais a meu respeito do que o que não sou. Escrevo com o que me afirma, deixando a negação apenas para pontuar meu discurso – quando necessário. Não pretendo abaixar todas as peças do tabuleiro teológico que não me identificam para descobrirem que sou o que sobrou.  Na teologia, não jogo “cara a cara”.

4 comentários:

Marilia Lessa disse...

"Rótulos"!!É isso que tenho visto ultimamente. Te rotulam com o que pensam de você e se rotulam de acordo com o que querem que pensem deles.
Brilhante texto!

Meire disse...

excelente reflexão, e acho que devemos levá-la para outros âmbitos da vida.

@MauricioZagari disse...

"Saíram de nós mas não eram de nós..." Mestre, creio que as duas esferas fazem parte de quem nós somos. Sou cristão, mas não sou adepto, por exemplo, da Teologia da Prosperidade. Isso fala tb a meu respeito, não? Creio que a afirmação positiva e negativa dialeticamente nos define.

Abraço grande, te admiro.

Anônimo disse...

Grande Zágari,
sem dúvida a negação faz parte do que somos, e tem algo a dizer a nosso respeito. Minha crise é com a negação como principal meio de afirmação do que se é; com a preocupação de não ser algo, mais do que de ser alguém; com a necessidade de se gastar mais tempo falando do que se não é, que do que se é.
A dialética na definição do que somos é inevitável. O peso que damos a cada um desses lados, em minha opinião, é que às vezes parece não fazer tanto sentido.
Com igual carinho e admiração, abração!

Daniel Guanaes