quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Religião para Ateus

Filósofo da vida cotidiana, Alain de Botton - suíço radicado em Londres - ficou mundialmente famoso com a obra "Como Proust pode mudar sua vida", Best-seller nos EUA e Grã-Bretanha. Seu estilo de escrita leve facilita aos leitores leigos não apenas a compreensão de seu pensamento, mas também os introduz ao conhecimento dos clássicos da filosofia.
Tardiamente ou não, Religião para Ateus foi meu primeiro contato com o pensamento de Alain de Botton. O livro me ganhou pela orelha, já que o título segue um padrão por demais cliché. "Deus pode estar morto, mas as questões urgentes que nos impulsionaram a inventá-lo ainda nos sensibilizam e exigem resoluções que não desaparecem quando somos instados a perceber algumas imprecisões científicas sobre o milagre da multiplicação de pães e peixes" foi a primeira frase que li, e que me fez ver que aquele não era mais um livro contra Deus.
Usualmente, deparo-me com ateus da escola de Dawkins. Homens que não escrevem para expor o que pensam, mas para desconstruir o que dizem não pensar. Alain de Botton preferiu outra via: a da tentativa de perceber na religião aspectos que trazem, de uma forma ou de outra, benefícios à sociedade. Declaradamente ateu, seu pressuposto é claro no livro: o transcendente divino e as experiências que dele decorrem são invenções humanas. Contudo, sua honestidade não o faz esconder os benefícios que percebe nas práticas e organizações religiosas. Em sua visão, elas oferecem à sociedade: sentimento de comunidade, delicadeza nos tratos, mentalidade menos comercial, escolha de referenciais de vida, reconsideração de estratégias de universidades, abordagens novas em relação à educação cultural, reconhecimento das necessidades infantis, abdicação de um otimismo contraproducente, utilização da arquitetura para preservar valores, aquisição de perspectivas por meio do transcendente, reorganização de museus e concentração de esforços dispersos no indivíduo interessado na proteção da alma para o patrocínio de instituições. Fantástico!
Não posso deixar de confessar, entretanto, minha angústia do começo ao final do livro. De Botton percebe muitos dos benefícios da religião. Como poucos entre os de sua cosmovisão, reconhece nela algum valor. Ainda assim, não se depara com seu maior tesouro. Disseca o Cristianismo e não encontra o seu Cristo. Respeito sua não-confessionalidade e admiro sua honestidade. Mas confesso que, pessoalmente, me frustro por tê-lo visto chegar tão perto em uma análise, e ainda assim permanecer tão longe. Filósofo da vida cotidiana que é, espero que continue lucubrando. E que descubra que, no lugar onde foi, existe muito mais.

Um comentário:

Fatima Bandeira disse...

humm... muito a ver com minha cabeça que só quer crer na razão e minha alma que quer ver a emoção.